Turismo regenerativo: o Polo de Ecoturismo da cidade de São Paulo e a próxima fronteira da sustentabilidade

Isabela Sette – Turismo 360 Consultoria

O setor de turismo vive um momento em que a sustentabilidade deixa de ser a linha de chegada e passa a ser o pré-requisito — o mínimo esperado, não mais o diferencial. O relatório Travel & Sustainability 2025, da Booking.com, realizado com 32 mil viajantes em 34 países, revelou que 69% dos entrevistados desejam deixar os destinos em melhores condições do que os encontraram, e 73% querem que os recursos gastos em viagens retornem diretamente para a economia local. No Brasil, a 7ª edição da Revista Tendências do Turismo 2026, publicada pelo Ministério do Turismo e Embratur, aponta que 98% dos brasileiros pretendem adotar práticas mais sustentáveis em suas próximas viagens.

Esses números mostram algo que vai além de uma tendência de nicho. Trata-se de uma mudança de expectativa do viajante: não basta minimizar impactos negativos — é preciso gerar impacto positivo. E é justamente aí que entra o conceito de turismo regenerativo.

Em artigo publicado no Portal Turismo Spot, destaco que o turismo regenerativo propõe uma mudança de paradigma de toda a cadeia rumo a uma nova mentalidade. Não se trata apenas de “causar menos danos”, como reforçam pesquisadores como Bellato e Pollock (2023), mas de obter resultados positivos líquidos nos territórios, nas comunidades e nos ecossistemas. A regeneração envolve uma visão sistêmica e de longo prazo, na qual o turismo se torna ferramenta para promover a saúde e o bem-estar de sistemas socioecológicos mais amplos, de maneira altamente centrada nas comunidades e no meio ambiente.

A distinção importa. O turismo sustentável, como modelo, opera fundamentalmente na lógica da mitigação: reduzir emissões, minimizar resíduos, controlar capacidade de carga. É indispensável — e continua sendo pré-requisito. Mas a regeneração vai além: ela propõe devolver aos capitais humano, social e natural mais do que se extraiu deles.

O desafio é encontrar caminhos de aplicação concreta deste conceito — e é aí que o caso do Polo de Ecoturismo ganha especial interesse.

O Polo de Ecoturismo de São Paulo: um laboratório para a regeneração

O Polo de Ecoturismo da cidade de São Paulo nasceu formalmente em 2014 (Lei Municipal nº 15.953) e ganhou seu primeiro Plano de Turismo Sustentável em 2017. De lá para cá, avanços significativos foram registrados: novas atividades turísticas surgiram, sítios se abriram para visitação, experiências em aldeias indígenas passaram a ser oferecidas, e programas como o Vai de Roteiro e o Rolê Agroecológico geraram fluxo e aprendizado para empreendedores locais.

Em 2024, a Secretaria Municipal de Turismo de São Paulo contratou a revisão da estratégia de desenvolvimento turístico da região, resultando no Plano 2025-2030. Tal plano foi construído de maneira colaborativa com os atores do turismo da região e a nova visão definida para o território é ser referência em turismo regenerativo e cocriação de experiências.

Esta escolha não foi aleatória. O diagnóstico identificou que o Polo já apresenta práticas concretas de regeneração ligadas ao turismo: recuperação de matas nativas, utilização de práticas positivas de agricultura, circularidade em propriedades rurais e vivências em território indígena que promovem conscientização e aprendizado. O desafio é escalar essas práticas, organizá-las e fortalecê-las,  contribuindo com uma identidade coletiva do destino.

Já a cocriação de experiências está relacionada à construção do valor de uma experiência turística, que não é entregue pronta pelo provedor de serviço, mas construída de maneira conjunta com o visitante. No contexto do turismo regenerativo, a cocriação de experiências está associada a imersão, engajamento e aprendizado mútuo, características também observadas em atrativos e estabelecimentos da região.

O Polo de Ecoturismo de São Paulo carrega, em escala reduzida, tensões que poucas iniciativas de cocriação e turismo regenerativo no mundo enfrentam. É um território de periferia inserido na maior metrópole da América Latina, onde problemas sociais complexos — ocupações irregulares, pressão sobre mananciais, precariedade de infraestrutura — convivem com remanescentes de Mata Atlântica, agricultura agroecológica familiar e a presença viva do povo guarani. A sustentabilidade ali não é um adjetivo de marketing — é uma necessidade estrutural.

É justamente essa complexidade que torna o caso singular — e, ao mesmo tempo, tão relevante para o debate atual.  Se o Polo conseguir avançar nessa direção — com consistência de políticas públicas, continuidade de investimentos e engajamento real da cadeia — se despontará como um exemplo de que é possível regenerar a partir das margens, no coração da complexidade urbana. E isso, por si só, já é uma provocação poderosa para repensar o papel do turismo nas grandes cidades.

Mestre em turismo pela USP, possui especializações também nas áreas de gestão pública e desenvolvimento sustentável. Foi diretora na Secretaria de Estado de Turismo de Minas Gerais (SETUR/MG) e integrou a equipe de consultores da Fundação Getulio Vargas no Índice de Competitividade Turística, em parceria com o Ministério do Turismo e o SEBRAE Nacional, atuando em diversas regiões do país. Possui experiência em projetos de planejamento, estruturação e competitividade turística, bem como no fortalecimento da governança.